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Pedro Moraes e Além do Princípio do Prazer, por Pedro Só

Para além dos rótulos vazios e dos adjetivos abusados até perder os sentidos; para alémdas patotas empacotadas em marketês ruim, para além da MPB de fruição digestiva ou do fast food pop pronto para ser ruminado. O segundo álbum solo do cantor e compositor carioca Pedro Sá Moraes é um trabalho construído com rigor estético raro, que convida o ouvinte a viagens mais profundas e transformadoras.

Fundamentado em conhecimento vasto da tradição do samba e de outros gêneros essenciais da música brasileira, Alémdo Princípio do Prazer tem a melodia como soberana e conta com a excelência vocal de Pedro, difícil de encontrar na produção atual. Mas impõe desafios singulares, não facilita o crediário no déficit de atenção nosso de cada dia, avança com ousadia por inovações estruturais e sônicas, pensa e faz repensar a canção. E isso recompensa imensamente.

Jon Pareles, decano da crítica do jornal The New York Times, rendeu-se ao disco apontando o contraste entre a suavidade do barítono e a aspereza dos arranjos, com guitarras ruidosas, interrupções repentinas de bateria e sobressaltos de andamento. "A primeira canção, 'Alarido', insinua um manifesto; ela adverte que 'um rebuliço dissonante assombrará você/ Furioso fuzuê' [que na tradução inglês divertidamente vira "furious racket"], mas isso vai levar a uma 'serena tensão', escreveu.

Os arranjos combativos tornam as melodias ainda mais fortes, por resistirem aos ataques
— Jon Pareles, NY Times

Lançamento do Além do Princípio do Prazer em Nova York Nublu, 16 de Janeiro de 2015 - Foto de Livia Cunha

Pareles viu Pedro cantar ao vivo algumas vezes, desde que o conheceu, em Nova York, em 2012, na primeira edição da mostra Brazilian Explorative Music. Ele situa o cantor entre aqueles que estão "de várias formas, extrapolando a herança da tropicália". É por aí mesmo. No projeto de debates e shows que Pedro Sá Moraes idealizou, Transversais do Tempo (com edições em Brasília, Salvador e Rio de Janeiro), uma das propostas é justamente avançar por questões que não estão resolvidas pela tal multiplicidade que o tropicalismo propôs há quatro décadas. 

"Alarido" é uma parceria com Thiago Amud, outro grande talento carioca desta geração, já devidamente reconhecido pela crítica local. Pedro e ele fazem parte do Coletivo Chama, que reúne mais seis músicos - Thiago Thiago de Mello, Renato Frazão, Fernando Vilela, Sergio Krakowski, Cesar Altai e Ivo Senra - e que pretende discutir a canção como arte, em possibilidades mais amplas, além de trabalhar uma consciência de cena.

 Ivo Senra assina a produção musical de Além do Princípio do Prazer, toca todos os sintetizadores e é autor dos arranjos, que têm contribuições de Pedro Sá Moraes. "A pulsação brasileira nas entrelinhas, nas semicolcheias implícitas, a bateria no vazio... O Ivo contribuiu com esse conceito minimalista de groove, que não é MPB. Botou esse veneno", aponta o cantor, que também tocou guitarras e pilotou ruídos que se somam à arquitetura eletrônica do produtor na busca do que chama de "materialidade sonora".

Floresta de Experimentações!
— Backstage

No diálogo, os dois pesquisaram referências muito específicas, que podem ser reconhecidas em suas fontes de pedigree mais respeitável (Radiohead, Björk, Stockhausen...) ou passar batido, a despeito da extração pop, como o timbre do baixo sintetizado de uma faixa de Britney Spears.

 Mestrando em teoria da literatura, Pedro estende a carta de intenções de "Alarido" na segunda canção do disco, "Não Quer Que O Mundo Mude", "essa marcha em três, pra ninguém, pra vocês", iniciada com a voz eletronicamente adulterada em um adeus a coronéis, comissões paroquiais, restrições sexuais. "Ah, as revoluções.../ Nossos pais, seus refrões, ideais/ Seus vilões, seus heróis triunfais/ Nunca mais tradições! Nunca mais sutiãs! Nunca mais!", ironiza a melodia nostálgica, evocando Noel Rosa, Orlando Silva e outros imortais para atingir certos dogmas sessentistas da destruição vazia.

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 A faixa 7, "Eunuco", a golpes da tal guitarra incômoda que o Pareles sacou, versos como "Ditosa mazela! Senhora: disponha de mim como um cão" avançam até o final infeliz: "Nas blagues dos blogues, as farsas do face atiçam tuíters/ Cerzi hashtags de raro interesse pra mentes aflitas/ Nos trópicos tristes, ergui meu palácio sobre palafitas/ Amor me sagrastes, das flores do Lácio, rei dos parasitas". Por essas e outras é que o crítico americano Tom Pryor, que escreve sobre música para o site da National Geographic, tascou em Pedro Sá Moraes e sua turma a definição "vanguarda de neotradicionalistas".

A quarta faixa, "O Olho da Pedra", escrita com Thiago Amud e Ivo Senra, que dialoga com vanguardas brasileiras de outras décadas, ajuda a explicar tal carimbo. E a ambiciosa "Ela Vertigem" (escrita com Tomas Saboga, com intermezzo de Ivo Senra), penúltima do disco, mostra até onde isso pode ser libertador.

De todo modo, obras como "A Hora da Estrela", parceria com João Cavalcanti, dispensam conceituações. Ela começa com citação do romance de Clarice Lispector em código Morse e traz intervenções eletroacústicas e sons processados com detalhismo - ouve-se até o atropelamento da personagem Macabéa -, sem que o lirismo essencial se perca em excesso de informação. Da mesma forma, a majestosa "Pra Nós" ecoa pelas alturas prog do Clube da Esquina, com espaço para belos vocais e poesia metafísica; o groove fraturado de "Não É Água", de Thiago Thiago de Melo, prossegue no diálogo irreverente com a tradição - ébria - de sambas e marchas cachaceiras, e tudo acaba na bossa subvertida e implícita de "Psalm 23", capaz de desconcertar a fisionomia de críticos americanos e brasileiros.

"Que disco doido!", foi o comentário espontâneo que Jon Pareles fez diante de Pedro, artista que frequenta os palcos dos EUA desde 2010, sempre com boa repercussão. Normal, considerando-se a singularidade dos caminhos trilhados pelo estudante de psicologia que se descobriu compositor aos 19 anos, quando morava na Índia, em uma comunidade dedicada à meditação, perto da região metropolitana de Mumbai. Autodidata no violão, ele considera que cursou sua universidade de música na Lapa. Viveu o renascimento do samba no bairro, no começo dos anos 2000 e se impôs como voz e presença cênica a partir do trabalho no grupo É Com Esse Que Eu Vou, que lançou um importante disco em 2007, Samba do Baú, com inéditas e semi-inéditas de Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Keti.

 Pedro Sá Moraes poderia ter se acomodado como cantor de samba, mas sua inquietude criativa o levou até aqui, Além do Princípio do Prazer. Agora, como diz a letra estandarte de "Alarido": "você vai ouvir apesar e através"._

Pedro Sá Moraes

Zingareio Produções, Santa Teresa, Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Brazilian singer-songwriter. "One of the 10 artists you should have known in 2012" - NPR.ORG